sábado, 10 de outubro de 2009



Fantasmas vieram cantar no convés! Que ódio! Bem no meio da noite! Bem durante a tempestade! Por que será da natureza dos fantasmas virem cantar à noite no meio da tempestade? Pois: Ódio! Vesti o roupão e saí com um espanador de pó à mão. (Não sabiam? Espantam-se fantasmas desta forma, agitando com força um espanador de pó enquanto a outra mão segura o lampião...).
Assim que me viram, empalideceram, apavoraram-se, debateram-se uns nos outros os pobres fantasmas. Eram uns trinta, tempestuava muito. Alguns perderam o norte e deixaram enlouquecer os seus sistemas navegantes ectoplasmáticos. Outros atiraram-se ao mar. Outros subiram tão alto que as cabeças bateram nas nuvens, e ficaram tontos. O céu amoleceu. Apanhei apenas um, pelo pescoço do lençol. Dei-lhe três socos e ele caiu, inerte...
Foi só quando a tormenta secou é que eu pude ver. E vi: um fantasma sangrava branco!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009


CONTÍCULO

Ele era horrível! Um filme de terror! Seus olhos eram como dois pãezinhos de maisena!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

OS FEIOS OS FEIOS OS FEIO SOS


Epígrafe ("Ilíada"): "Era o mais feio de quantos no cerco de Tróia se achavam. Pernas em arco, arrastava um dos pés; as espáduas, recurvas, se lhe caíam no peito e, por cima dos ombros, em ponta, o crânio informe se erguia, onde raros cabelos flutuavam".

Ninguém mais notaria: os Dois desciam a escadaria com os olhares baços. Ele deslocava os membros curtos e o abdome volumoso; Outro vinha com a frágil esbelteza de um títere desconjuntado, as mãos imensas. Buscavam qualquer mesa vaga. Mas não havia. Pediram cervejas e ficaram em pé ali mesmo, cada qual de um lado da pilastra, flertando a beleza das dançarinas. Foram-se dois, três e quatro copos de bebida sem que ninguém viesse animá-los. Invertiam agora as posições: deste lado estava Outro, com sua calvície mal disfarçada pelos três fios de cabelo colados com gomalina no alto da cabeça; daquele lado, Ele e suas madeixas patéticas decalcadas em forma de caos nas têmporas.

Até que chegam as irmãs Duas. Ninguém mais as notaria: Ela caminhava atenta, olhos vesgos, entreolhantes, sobrancelhas mal desenhadas em V; Outra sobrando nas roupas decotadas que nenhum aspecto harmonioso deixavam ver. Sentaram próximas ao balcão e na primeira oportunidade saltaram - garças vorazes - para a mesa que acabara de ser desocupada. Ninguém mais as percebeu. Pediram cerveja, discretas. Outra buscava sorrir, mas os lábios apenas arreganhavam, fazendo aparecer os dentes amarelos em franco desalinho. Ela mirava ao redor, desordenada, o gigantesco nariz quase acertando os passantes.

Quando afinal flertaram. Foi Ele quem iniciou os trabalhos amorosos. Veio meio mancando da perna esquerda, espuma de cerveja no bigodinho Don Juan. Pôs na mesa a bebida e ofereceu a Outra. Falou um pouco, com um canto da boca, e depois foi buscar o amigo Outro. Outro aproximou-se, a camisa aberta no peito a simular um latin lover raquítico. Sentados em fila, riram. Ele convidou Outra para dançar. Outra, o gorrinho verde musgo não disfarçando as orelhas abanantes de felicidade, aceitou. Bailaram, e bastante, as pernas arqueadas de Outra a roçar os joelhos desiguais de Ele, enquanto Ela e Outro confidenciavam-se, declamando em voz baixa e torpe uns poemas satíricos.

Depois quem dançava conversou, e evidente vice-versa.

Então deram horas: as garrafas vazias. Outra levantou e disse, a verruga no queixo a invadir o ambiente, “Precisamos ir! Adeus”. E puxou os pêlos da barba de Ela que mal se escondiam no espesso da maquiagem. Foram-se, lépidas, as irmãs Duas, quase sem despedidas, capivaras ao vento. Certamente não trocaram beijos com seus pares. Certamente não às minhas vistas. E de novo os Feios herdaram a solidão: Ele sorri sua falta de dentes; Outro lança à frente o maxilar e boceja uma careta de filme de terror. Ambos trocam olhares com o Nada. Como sempre acontece nas noites de festa.

Até que se foram também, deixando-me cá, com meu último e inútil flerte.




Pequeno auditório para meias-palavras.
FABULÁRIO DE FABULINHAS
(contículos psicodsticos)

Fuga para o Norte

Fugi para o norte, a ver se alguém dava pela minha falta. Caminhei tantos meses que vi meus pés irem gastando. E gastando muito, se foram. Viraram uns tocos de pernas marchando no asfalto. Corri, corri tanto que acabaram sobrando só os giolhos, meio que pedindo perdão. E agora que eu dei a volta toda nos planetas, aqui estou, meio metro a menos, dando pela minha falta.


A Fera de Dentro

A fera que vive de vento comeu-me primeiro as orelhas. Depois entrou pelo crânio e foi procurar as almas lá dentro. Olhou, olholhou e escolheu a melhor - a mais bonita?, a mais franzina?.
A fera então comeu minha alma de vento. Eu, o que fiz? Calei, tomado pelo oco-vácuo da falta daquele frio de dentro.
Mas nas veias me corria um urso com pele de estrelas, um rosto de criança triste, e um navio. Apiedei-me das duas faces do monstro. Eu o que sou?
“Somos a mesma substância”, eu lhe disse, “o monstro que somos”. Ela sorriu, a bandida!
Mesmo condenado, ainda acariciei-lhe o pêlo. Um fraco. Agradecida, a fera de vento comeu-me primeiro as mãos.



Balada Cósmica (ou seja, O Grande Decaptor)

Na véspera, ele finalmente alcançou os céus. O Grande Decaptor escalou o lilás do arco-íris, redescobriu a chave etérea, travou sua luta contra o inversor de infinitos, e venceu.
E como já se esperava, aquele quem nos vendeu um filho encostado à cruz e do barro semeou espantalhos viu-se afinal abatido pelos golpes do irmão. Teve as vestes queimadas, os olhos arrancados - que uma criança faminta e malcheirosa há de comer - e, acorrentado às estrelas, foi posto em julgamento.
Nós assistíamos em delírio.
Sua fisionomia impossível perece. Suplica. Mas o Grande Decaptor, com a justiça erguida numa das mãos, restabelece o caos: excomunga a primeira galáxia, engole a segunda e encarrega aos óvnis a terceira.
Fim.



Medo

Os cobertores voavam de susto pelo quarto. Eu ouvia umas vozes num gravador antigo nas orelhas da parede. Quase como insetos juntando ao redor. Não que nos quisessem devorar, os insetos - pior que isso. Ficavam ali espionando com olhículos tão estranhos que o medo que eu tinha era o do que eles podiam ver com os óculos. O efeito psicológico era o de um prato branco sendo arrastado no assoalho da sala te espantando no meio da noite, entende? Um susto branco, lençóis, que mordem nossos joelhos. Mas não é um susto, é você mesmo espantando os cobertores e escutando nas bocas das paredes o medo. Dentro da engenharia do crânio você inunda a rua e não pensa nada. Um inseto já te demora um olhar que vai desde o começo. Gostaria de retê-lo. Mas eu podia? Eu poderia derretê-lo?
Mas não! “Aqui mando eu!”, gritou o narrador!
E saí para buscar o revólver!



Florbela!

A doce Florbela está todas as noites no bar vinte de dezembro. Nós perguntamos o que faz com que a Belaflor ali passe assim tantas noites, em vão? Ninguém que a perceba. Ninguém a odeia: Belflor é transparente.
- É?
Todas as noites o ritual: chega cedo às três; faz o pedido, cálice azul, e fuma. Às vezes pergunto se ela é existente ou se eu a repriso na mente o mesmo desejo...
Laflor promete a si mesma: o Príncipe? a Noite? o Natal?
Não importa: Fez “afl” e se foi.


Dinossauros (diálogo possível)

- Ainda os dinossauros...

- Ah, os dinossauros... - eu mesmo respondi, incólume - Assim pançudos e vorazes vegetarianos, mascando as próprias vísceras...

- Mil velhos guindastes famintos, vorazes urradas...
- Bestas trôpegas.
- Acho esquisito falar “trôpegas” - observei, sagaz.

- Um dinossauro come só alface?
- Heim? A face do dinossauro?!
- É! Seu gigânteo pescoço! Um dinossauro é quase só girafa, mas sem os rabiscos. Garrido.

- Um dinossauro é sempre verde? - pergunto-me.
- Sempre! Já viu dinossauro maduro?



Mês de Agosto


Em agosto os homens índios vêm roer nossas dores uivantes. É quando minhas mãos cheiram a cachorros.
Meu nariz vai até a esquina. Nem dou um passo. Quando espirra meu nariz varre a cidade, furacão. Minhas roupas cheiram mal. Um gigante do tamanho do tufão e pés de formigas.
Preciso de um café. Minhas mãos cheiram a cachorros, melhor não tocar nada. Um café! Por favor!
Quisera ter uma astronave e ser o capitão. O capitão da astronave!
Mas vou apenas até a janela e ponho a mente para fora, devagarinho.


O cachorro de mim

Hoje descobri apavorado - porque me contaram e quando vim ver era mesmo - um quadrado! - um cachorro!
Isso mesmo! Eu! Vejo as patas, o rabinho abanando! Sinto escorrer-me a baba, sou baixíssimo suplicante! “Deus, que sonho idiota!”, sonhei ao mesmo tempo. Mas sou mesmo o cachorro, entende?
- Au de mim!



Olho


Sou um olho esquerdo. Nada além disso que sou. Ele me vê bem de perto. Inchado. Aberto. Fecho os meus como quem não o quer. Deixo de ser. Mas aí ele decide vir por dentro, é olho esperto, um pouco lilás. Vermelho. Verde também. Medonho. Olho meio vítima é o pior tipo de olho para ver. Tudo isso por dentro da fresta pequena que as pálpebras deixam. Mesmo assim eu minto pros meus. Olho, mas ele me vem, sem freios. Eu o sorrio. Mas ele vem tão perto, mas tão perto que só pensa ver o escuro dumas sombras, frente a frente. Mas quem engana o olho? Quem trapaceia um olho esquerdo? Você, estirado aí nessa cadeira confortável, hein?, faria isso? E eu? Eu, hein?! Puf!



O Chapéu do mundo


Olhei pro céu. Ele me pareceu: um grande chapéu. Visto aqui de baixo, com suas abas que são as nuvens-do-céu...
Era o “Dia do Grande Chapéu”, entende?
O infinito não estava mais lá! “O Dia do Grande Chapéu!”, sacou?
Agora o que havia era O Grande Chapéu, escuro igual noite (e era sempre noite – ninguém nunca tirava o chapéu). Só depois pensei (quando acordei) se no Japão seria também... o Dia do Grande Chapéu?!
Ou seria lá o contrário do oco-côco daqui? Será?
(Então sumi).



Elípogo: O DISCÉPOLO DE LIMÃO
(depoimentos)


1
Lembro. Eu assistia à Sessão da Tarde, na tevê. Umas quatro ou cinco da tarde. Intervalo comercial, eu acho. Fazia sol. O jornal, Hoje ou Nacional, irrompera para falar da Morte. Eu tinha dez anos e não entendia quem tinha falecido, o tal João Limão.
Imagens locais: Nova Iorque. Choro, mocinhas gritando, uma ambulância partindo. A musiquinha de fundo, piano e voz.
Depois de uns dias é que fui entender, ainda e sempre pela musa tevê, as reprises de tudo aquilo, quem era o Lennon, o Limão, que tinha morrido, ácido. Era quem cantava “Help!”!.
Aí entendi.

2
Pois, aconteceu meio que a mesma coisa na tevê, a cornamusa, tempo depois. Anos. Aparecera Paulo Limoninski, tradutor dos livros de Lennon. Eu não sabia quem.
Depois soube e li os livros e vi os desenhos. Morri junto com todos eles.
Por isso tudo e muito mais pouco, declaro-me, a partir deste instante cosmo-factual, por eles e por nós, declaro-me, repito, roseanosaramagicamente falando, um verdadeiro, e não único, sem dúvida, um Discépolo do Ácido Limão, um inequívoco Discépolo de Limão!!!
E tenho dito!

- Três vivas ao Discépolo de Limão!!!!!!
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Mágica"
fotos André Coelho